O crescimento extremamente rápido do uso de redes sociais digitais por adolescentes está gerando crescentes preocupações. A ANSES (Agência Francesa de Segurança Sanitária Alimentar, Ambiental e do Trabalho) realizou uma avaliação científica abrangente dos riscos à saúde associados a esse uso. A avaliação identifica inúmeros riscos potenciais, principalmente para a saúde mental dos adolescentes. As redes sociais em seu formato atual, que visam captar a atenção e manter o engajamento, exploram vulnerabilidades específicas dessa faixa etária. A Agência recomenda, portanto, que menores tenham acesso apenas a redes sociais protegidas e configuradas para proteger sua saúde.
Conhecimento multidisciplinar para fundamentar políticas públicas
Na França, um em cada dois adolescentes passa entre duas e cinco horas por dia usando smartphone, frequentemente acessando redes sociais, uma prática que está se tornando cada vez mais comum e frequente. De acordo com o barômetro digital CREDOC 2025, 58% dos jovens de 12 a 17 anos relatam acessar as redes sociais diariamente. A maioria publica conteúdo próprio ou compartilha e comenta o conteúdo de outros.
Em resposta a essa situação, a ANSES (Agência Francesa para a Segurança Alimentar, Ambiental e do Trabalho) realizou uma revisão inovadora por especialistas para informar todas as partes interessadas, incluindo a autoridades públicas, sobre os potenciais efeitos do uso das redes sociais na saúde dos adolescentes e ajudá-los a tomar as medidas adequadas. Para realizar esse trabalho, a ANSES contou com um grupo multidisciplinar de especialistas, incluindo epidemiologistas, biólogos, psiquiatras e psicólogos infantis e pesquisadores em ciências da informação e comunicação. Esses especialistas identificaram e analisaram mais de mil estudos científicos sobre os efeitos das redes sociais na saúde, tanto essa revisão por especialistas única devido ao grande volume de dados utilizados.
Mecanismos poderosos de captura de atenção aos quais os adolescentes são particularmente vulneráveis.
Especialistas estudaram os mecanismos usados pelas redes sociais para capturar a atenção dos adolescentes. "Para avaliar os efeitos das redes sociais na saúde, foi importante ir além do tempo gasto nas redes e considerar o que os adolescentes realmente fazem nas redes sociais, suas motivações e seu envolvimento emocional", explica Olivia Ruth-Delgado, coordenadora da revisão especializada.
O modelo de negócio das redes sociais visa maximizar o tempo do usuário para fins comerciais. O objetivo é vender tanto espaço publicitário quanto dados sobre as preferências e hábitos do usuário. As empresas que desenvolvem redes sociais, portanto, implementam estratégias para captar a atenção e manter o engajamento do usuário pelo maior tempo possível. Essas estratégias se baseiam em mecanismos de incentivo poderosos, como interfaces manipulativas (padrões obscuros) e algoritmos que fornecem conteúdo altamente personalizado. Esses algoritmos podem gerar um "efeito espiral", no qual os usuários ficam presos em conteúdo cada vez mais direcionado e, às vezes, extremo.
As redes sociais, da forma como estão atualmente estruturadas, exploram as necessidades específicas da adolescência em termos de interação e comparação social, emoções e tomada de riscos, bem como a busca por reconhecimento entre pares.
"A adolescência é um período sensível no desenvolvimento e na construção da identidade e individual e social. Os adolescentes têm menos habilidades de regulação emocional e comportamental do que os adultos, o que os torna particularmente vulneráveis aos efeitos nocivos das redes sociais", explicam os especialistas.
Distúrbios do sono: Ao maximizar o tempo gasto nas redes sociais, a hora de dormir é adiada e o processo de adormecimento pode ser interrompido, levando a distúrbios do sono. A má qualidade do sono causa sonolência diurna, irritabilidade, tristeza e pode contribuir para sintomas depressivos.
Perda de autoestima
A troca de conteúdo virtual focado na aparência física, seja por meio de imagens retocadas ou não, pode distorcer a imagem corporal. Essas práticas, combinadas com as pressões sociais para se adequar aos padrões de beleza, podem exacerbar os transtornos alimentares. Além disso, especialistas confirmam que a exposição a conteúdo ficcional ou idealizado nas redes sociais pode levar à baixa autoestima e, assim, criar um terreno fácil para o surgimento de sintomas depressivos.
Comportamentos de Risco
Os algoritmos de personalização de conteúdo amplificam a exposição a conteúdo que pode estar relacionado a comportamentos de risco, como transtornos alimentares, automutilação, uso de drogas ou tentativas de suicídio.
Exposição à Ciberviolência
A ciberviolência e o cyberbullying (insultos, boatos, exclusão, chantagem ou distribuição de imagens íntimas sem consentimento) têm repercussões na saúde mental. O anonimato e a facilidade com que as ameaças podem ser disseminadas amplificam o envolvimento da ciberviolência.
Meninas Mais Expostas nas Redes Sociais (dados da França)
Por fim, pesquisas mostram que as meninas são mais impactadas do que os meninos em todos esses efeitos.Essa observação pode ser explicada por diversos fatores:
1. As meninas usam as redes sociais mais do que os meninos;
2. Elas usam com mais frequência redes sociais altamente virtuais, baseadas na troca e compartilhamento de imagens e na autoapresentação;
3. Elas sofre mais pressão social relacionada a esteriótipos de gênero;
4. Elas são vítimas de cyberbullying com mais frequência do que os meninos;
5. Elas também parecem dar mais importância ao conteúdo das redes sociais digitais, com um envolvimento emocional mais forte.
"As redes sociais funcionam como um espaço para refletir certas dinâmicas sociais", explicam os especialistas.
As plataformas devem garantir redes que respeitem a saúde dos menores.
Para proteger a saúde dos menores, a ANSES (Agência Francesa para a Segurança Alimentar, Ambiental e do Trabalho) recomenda abordar as causas profundas do uso nocivo das redes sociais. Recomenda, portanto, que os menores só tenham acesso a redes sociais concebidas e configuradas para proteger a sua saúde.
Isso significa que as plataformas digitais devem implementar os limites de idade estipulado pelo RGPD para impedir o acesso de menores de 13 anos, com sistemas confiáveis de verificação da idade e obtenção do consentimento dos pais.
Implica também uma revisão completa dos princípios de funcionamento das redes sociais: evitar a utilização de técnicas de interface manipulativas, proibir a disseminação de conteúdos prejudiciais à saúde (comportamentos de risco, jogos de azar, dietas extremas, conteúdo violento, pornográfico, de ódio, assédio etc), limitar a amplificação de conteúdo prejudicial à saúde e regular as funcionalidades concebidas para aumentar, manter ou proteger o envolvimento do utilizador com o serviço.
A Agênia reitera ainda que as plataformas têm a responsabilidade de garantir serviços de redes sociais que protejam a saúde dos utilizadores e de mobilização robustas. Para tal, a ANSES sublinha a importância de trabalhar para o cumprimento da Lei Europeia dos Serviços Digitais, aplicáveis desde 17 de fevereiro de 2024 (comentário do tradutor: infelizmente, no Brasil, procura-se atrasar e/ou impedir a regulamentação de lei dessa natureza). Segundo Olivier Merckel, chefe da unidade de avaliação de risco relacionados com agentes físicos, "os numerosos efeitos negativos para a saúde dos adolescentes, destacados e documentados por esta análise especializada da ANSES, exigem a adoção de um quadro de "governança" das redes sociais compatível com os desafios de saúde pública".
O uso das redes sociais tem uma influência duradoura na forma como os adolescentes interagem com o mundo e o percebem quando se tornam adultos. A ANSES enfatiza, portanto, a importância da implementação de políticas que promovam a alfabetização digital (comentário do tradutor: diríamos aqui no Brasil letramento digital) e o apoio, principalmente por parte dos pais. A Agência credita que essas medidas preventivas devem ser desenvolvidas em colaboração com os adolescentes. DE fato, as campanhas de conscientização serão muito mais eficazes quando os adolescentes estiverem envolvidos es sua criação.
Disponível em: https://www.anses.fr/fr Acesso em: 13 jan. 2026.
Tradução e comentários: Leonardo Ferreira da Silva








