EM DIA COM O ENEM - AVALIAÇÃO 5
TEXTO
1
Somente
uns tufos secos de capim empedrados crescem na silenciosa baixada que se perde
de vista. Somente uma árvore, grande e esgalhada mas com pouquíssimas folhas,
abre-se em farrapos de sombra. Único ser nas cercanias, a mulher é magra,
ossuda, seu rosto está lanhado de vento. Não se vê o cabelo, coberto por um
pano desidratado. Mas seus olhos, a boca, a pele – tudo é de uma aridez sufocante.
Ela está de pé. A seu lado está uma pedra. O sol explode. Ela estava de pé no
fim do mundo. Como se andasse para aquela baixada largando para trás suas
noções de si mesma. Não tem retratos na memória. Desapossada e despojada, não
se abate em autoacusações e remorsos. Vive. Sua sombra somente é que lhe faz
companhia. Sua sombra, que se derrama em traços grossos na areia, é que adoça
como um gesto a claridade esquelética. A mulher esvaziada emudece, se
dessangra, se cristaliza, se mineraliza. Já é quase de pedra como a pedra a seu
lado. Mas os traços de sua sombra caminham e, tornando-se mais longos e finos,
esticam-se para os farrapos de sombra da ossatura da árvore, com os quais se
enlaçam.
FRÓES,
L. Vertigens: obra reunida. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
01. Na apresentação da paisagem e
da personagem, o narrador estabelece uma correlação de sentidos em que esses
elementos se entrelaçam. Nesse processo, a condição humana configura-se
A)
amalgamada pelo processo comum de desertificação e de solidão.
B)
fortalecida pela adversidade extensiva à terra e aos seres vivos.
C)
redimensionada pela intensidade da luz e da exuberância local.
D)
imersa num drama existencial de identidade e de origem.
E)
imobilizada pela escassez e pela opressão do ambiente.
TEXTO 2
Enquanto
isso, nos bastidores do universo. Você planeja passar um longo tempo em outro
país, trabalhando e estudando, mas o universo está preparando a chegada de um
amor daqueles de tirar o chão, um amor que fará você jogar fora seu atlas e
criar raízes no quintal como se fosse uma figueira. Você treina para a maratona
mais desafiadora de todas, mas não chegará com as duas pernas intactas na hora
da largada, e a primeira perplexidade será esta: a experiência da frustração. O
universo nunca entrega o que promete. Aliás, ele nunca prometeu nada, você é
que escuta vozes. No dia em que você pensa que não tem nada a dizer para o
analista, faz a revelação mais bombástica dos seus dois anos de terapia. O
resultado de um exame de rotina coloca sua rotina de cabeça para baixo.
Você não imaginava que iriam tantos amigos à
sua festa, e tampouco imaginou que justo sua grande paixão não iria. Quando
achou que estava bela, não arrasou corações. Quando saiu sem maquiagem e com
uma camiseta puída, chamou a atenção. E assim seguem os dias à prova de
planejamento e contrariando nossas vontades, pois, por mais que tenhamos
ensaiado nossa fala e estejamos preparados para a melhor cena, nos bastidores
do universo alguém troca nosso papel de última hora, tornando surpreendente a
nossa vida.
MEDEIROS,
M. O Globo, 21 jun. 2015.
02. Entre as estratégias
argumentativas utilizadas para sustentar a tese apresentada nesse fragmento,
destaca-se a recorrência de
A)
estruturas sintáticas semelhantes, para reforçar a velocidade das mudanças da
vida.
B)
marcas de interlocução, para aproximar o leitor das experiências vividas pela
autora.
C)
formas verbais no presente, para exprimir reais possibilidades de concretização
das ações.
D)
construções de oposição, para enfatizar que as expectativas são afetadas pelo
inesperado.
E)
sequências descritivas, para promover a identificação do leitor com as
situações apresentadas.
TEXTO 3
A
viagem Que coisas devo levar nesta viagem em que partes? As cartas de navegação
só servem a quem fica. Com que mapas desvendar um continente que falta?
Estrangeira do teu corpo tão comum quantas línguas aprender para calar-me?
Também quem fica procura um oriente. Também a quem fica cabe uma paisagem nova
e a travessia insone do desconhecido e a alegria difícil da descoberta. O que
levas do que fica, o que, do que levas, retiro?
MARQUES,
A. M. In: SANT’ANNA, A. (Org.). Rua Aribau.
Porto Alegre: Tag, 2018.
03. A viagem e a ausência remetem a
um repertório poético tradicional. No poema, a voz lírica dialoga com essa
tradição, repercutindo a
A)
saudade como experiência de apatia.
B)
presença da fragmentação da identidade.
C)
negação do desejo como expressão de culpa.
D) persistência da memória na valorização do passado.
E) revelação de rumos projetada pela vivência da solidão.
TEXTO 4
Expostos
na web desde a gravidez Mais da metade das mães e um terço dos pais ouvidos em
uma pesquisa sobre compartilhamento paterno em mídias sociais discutem nas
redes sociais sobre a educação dos filhos. Muitos são pais e mães de primeira
viagem, frutos da geração Y (que nasceu junto com a internet) e usam esses
canais para saberem que não estão sozinhos na empreitada de educar uma criança.
Há, contudo, um risco no modo como as pessoas estão compartilhando essas
experiências. É a chamada exposição parental exagerada, alertam os
pesquisadores. De acordo com os especialistas no assunto, se você compartilha
uma foto ou vídeo do seu filho pequeno fazendo algo ridículo, por achar
engraçadinho, quando a criança tiver seus 11, 12 anos, pode se sentir
constrangida. A autoconsciência vem com a idade. A exibição da privacidade dos
filhos começa a assumir uma característica de linha do tempo e eles não
participaram da aprovação ou recusa quanto à veiculação desses conteúdos.
Assim, quando a criança cresce, sua privacidade pode já estar violada.
OTONI,
A. C. O Globo, 31 mar. 2015 (adaptado).
04. Sobre o compartilhamento
parental excessivo em mídias sociais, o texto destaca como impacto o(a)
A)
interferência das novas tecnologias na comunicação entre pais e filhos.
B)
desatenção dos pais em relação ao comportamento dos filhos na internet.
C)
distanciamento na relação entre pais e filhos provocado pelo uso das redes
sociais.
D)
fortalecimento das redes de relações decorrente da troca de experiências entre
as famílias.
E)
desrespeito à intimidade das crianças cujas imagens têm sido divulgadas nas
redes sociais.
TEXTO 5
O
projeto DataViva consiste na oferta de dados oficiais sobre exportações,
atividades econômicas, localidades e ocupações profissionais de todo o Brasil.
Num primeiro momento, o DataViva construiu uma ferramenta que permitia a
análise da economia mineira embasada por essa perspectiva metodológica complexa
e diversa. No entanto, diante das possibilidades oferecidas pelas bases de
dados trabalhadas, a plataforma evoluiu para um sistema mais completo. De
maneira interativa e didática, o usuário é guiado por meio das diversas formas
de navegação dos aplicativos. Além de informações sobre os produtos exportados,
bem como acerca do volume das exportações em cada um dos estados e
municípios
do País, em poucos cliques, o interessado pode conhecer melhor o perfil da
população, o tipo de atividade desenvolvida, as ocupações formais e a média
salarial por categoria.
MANTOVANI,
C. A. Guardião de informações. Minas faz Ciência,
n. 58, jun.-jul.-ago. 2014 (adaptado).
05. Entre as novas possibilidades
promovidas pelo desenvolvimento de novas tecnologias, o texto destaca a
A)
auditoria das ações de governo.
B)
publicidade das entidades públicas.
C)
obtenção de informações estratégicas.
D)
disponibilidade de ambientes coletivos.
E)
comunicação entre órgãos administrativos.
TEXTO 6 - Menina
A
máquina de costura avançava decidida sobre o pano. Que bonita que a mãe era,
com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos,
enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu
trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da
mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita
chamava-a de ( ) como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia
que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A
mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome
depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e — Mamãe, o que é
desquitada? — atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se
alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia — sentia Ana Lúcia. Era muito
forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura
no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina
avançando desgovernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz.
ÂNGELO,
I. Menina. In: A face horrível. São Paulo: Lazuli, 2017.
06. Escrita na década de 1960, a
narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na
A)
insinuação da lacuna familiar gerada pela ausência da figura paterna.
B)
associação entre a angústia da menina e a reação intempestiva da mãe.
C)
relação conflituosa entre o trabalho doméstico e a emancipação feminina.
D)
representação de estigmas sociais modulados pela perspectiva da criança.
E)
expressão de dúvidas existenciais intensificadas pela percepção do abandono.
TEXTO 7
Uma
ouriça Se o de longe esboça lhe chegar perto,
se
fecha (convexo integral de esfera),
se
eriça (bélica e multiespinhenta):
e,
esfera e espinho, se ouriça à espera.
Mas
não passiva (como ouriço na loca);
nem
só defensiva (como se eriça o gato);
sim
agressiva (como jamais o ouriço),
do
agressivo capaz de bote, de salto
(não
do salto para trás, como o gato):
daquele
capaz de salto para o assalto.
Se
o de longe lhe chega em (de longe),
de
esfera aos espinhos, ela se desouriça.
Reconverte:
o metal hermético e armado
na
carne de antes (côncava e propícia),
e as molas felinas (para o assalto),
nas
molas em espiral (para o abraço).
MELO
NETO, J. C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro:
07.
Nova Fronteira, 1997. Com apuro formal, o poema tece um conjunto semântico que
metaforiza a atitude feminina de
A)
tenacidade transformada em brandura.
B)
obstinação traduzida em isolamento.
C)
inércia provocada pelo desejo platônico.
D)
irreverência cultivada de forma cautelosa.
E)
desconfiança consumada pela intolerância.